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Momentos de reflexão, opinião, crítica e entretenimento

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Interpretação da letra Telemóveis de Conan Osiris

Março 04, 2019

P. P.

i-phone-2547677_1920 - Imagem por nickypung na Pixabay

Imagem por nickypung na Pixabay

 

    Nesta publicação procuro interpretar, de forma pessoal, o tema vencedor do Festival da Canção 2019, Telemóveis, de Conan Osiris, sem conhecer a original. Em torno do intérprete e da letra muito se tem escrito de bom e de mau. De acordo com Miguel Esteves Cardoso, no artigo de opinião, do Público, Viva Conan Osiris, em 21 de fevereiro, "(...) Ouvi-lo cantar é como assistir a uma discussão interminável e irresolúvel sobre as origens do fado: está lá o canto cigano, o canto andaluz, o canto magrebino. Estão lá os visigodos, os romanos e os mouros." Recordemos a letra da música vencedora, com 12 pontos do público e 12 do júri.

 

 

Eu parti o telemóvel
A tentar ligar para o céu
Pra saber se eu mato a saudade
Ou quem morre sou eu


Quem mata quem
Quem mata quem
Mata?
Quem mata quem?
Nem eu sei
Quando eu souber, eu não ligo a mais ninguém


Se a vida ligar
Se a vida mandar mensagem
Se ela não parar
E tu não tiveres coragem de atender
Tu já sabes o que é que vai acontecer

 

Eu vou descer a minha escada
Vou estragar o telemóvel
O telele
Eu vou partir o telemóvel
O teu e o meu
Eu vou estragar o telemóvel
Quero viver e escangalhar o telemóvel


E se eu partir o telemóvel?
Eu só parto aquilo que é meu
Tou pra ver se a saudade morre
Vai na volta quem morre sou eu


Quem mata quem
Mata?
Eu nem sei
A chibaria nunca viu nascer ninguém


Eu partia telemóveis
Mas eu nunca mais parto o meu
Eu sei que a saudade tá morta
Quem mandou a flecha fui eu


Quem mandou a flecha fui eu


Fui eu

 

    O telemóvel tem vindo a ocupar um papel primordial na comunicação entre os homens. Todos procuramos compreender o que acontece connosco, mas nem sempre somos bem sucedidos. Algumas verdades e evidências estão dentro de nós, não nos sendo imediatamente percetíveis, bem como a outros recetores. A saudade é, em meu entender, algo cuja essência somente compreendemos após a morte de um ou mais entes queridos. O seu poder é muito abrangente podendo "matar-nos". Neste perspetiva, o compositor pode referir-se a algum ente querido, como é o caso do pai, que praticamente não conheceu, fruto da morte precoce por problemas de toxicodependência.  

    Na 2.ª e 3.ª estrofes deparamo-nos com a incerteza de quem pode vencer a batalha entre a saudade e a vida. Com receio do que pode resultar desta conexão, antevendo uma resposta que lhe parece óbvia, a decisão de destruir o meio de comunicação, não querendo que a saudade o e nos destrua, ainda que incerto a respeito desta possibilidade ("Tou pra ver se a saudade morre/ Vai na volta quem morre sou eu"). Mas acusar "nunca viu ninguém nascer". Como tal, na última estrofe, o compositor conclui que foi capaz de matá-la, dada a sua iniciativa, evitando o oposto. De tal, revela-se orgulhoso, como expressa nos dois últimos versos "Quem mandou a flecha fui eu/ Fui eu". Assim, de nada adianta partir outros telemóveis: de pouco adianta conhecer a saudade, mas sim saber como destruí-la.

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